Calamidade Fabulosa
Um esqueleto humano de 28 metros pôde ser visto estendido diante de inúmeros palácios europeus a partir de 1990. A mórbida e curiosa intervenção no espaço arquitetônico desses grandes símbolos do poder medieval foi uma das marcas deixadas pelo artista italiano Gino de Dominicis, falecido em 1998.
A obra é absolutamente fiel à anatomia humana em quase todos os detalhes - com exceção de um nariz comprido e curvado - e acrescenta evidentes pinceladas de fantasia e humor a um quadro tétrico e absurdo. Mas, o que significa esse esqueleto gigante que repousa diante de palácios?
Apelidado de “Calamidade Cósmica”, eis o enigma de Dominicis diante do Palazzo Reale de Milão, na Itália, em 2007.
A chave do enigma pode estar nos interesses do artista, já que ele era conhecido por suas posturas pouco convencionais. Era avesso a títulos, datas e categorias, nutria grande interesse pela morte e pelos mitos e pelas invenções e caricaturas renascentistas de Leonardo. Costumava buscar inspiração em fábulas muitas vezes calcadas nas histórias infantis, retirando delas a matéria-prima para especulações metafísicas.
Talvez por isso o misterioso esqueleto gigante possua um descomunal nariz adunco que lembra os grandes personagens da Commedia dell’Arte italiana, como o Arlequim, o Pantalone ou o capitão Escaramouche. E o fato de ter sido estendido diante de antigos palácios, sem dúvida, faz pensar na indissociável relação entre o poder e o ridículo ou entre a política e a morte.
A escultura estreou em 1990 no Centre National d’Art Contemporain, em Grenoble, França. De lá, foi levada para os jardins do Palácio de Capodimonte, em Nápoles, em 1996. Depois, em 2007, já depois da morte de Dominicis, passou algum tempo no Mole Vanvitelliana, em Ancona, Itália, cidade natal do artista. Viajou novamente para o local mostrado nas fotos, o Palazzo Reale de Milão. Passou ainda pela fachada do palácio de Versalhes de Parterre d’Eau e pelo Musee des Arts Contemporains de Hornu, na Bélgica, antes de chegar a seu destino final, Roma.
O local exato onde pode ser apreciada hoje é o Maxxi Museu Nacional das Artes do Século 21, em Roma, Itália. A “Calamidade Cósmica”, portanto, continua interferindo na paisagem urbana contemporânea, metendo o enorme nariz onde – pelo menos na opinião de alguns – não deve.












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